
Zeca
Nada mal pra começar um dia. Chuva.
Que bosta, cheguei na escola todo ensopado. O ônibus ainda ficou preso num engarrafamento, me deixando ainda mais atrasado. Cheguei à porta da minha sala de aula, mas o coordenador me impediu.
-Atrasado novamente, não é, José? - Ele perguntou, movendo aquele bigode seboso igual à Feiticeira move seu nariz. Só não ri na cara dele porque isso me daria uma suspensão nova na minha ficha.
-Poisé, sabe como é... - Falei, apontando para a janela ao nosso lado, que impedia que o temporal cinzento alagasse o prédio. Estava tão escuro que as luzes precisaram ser acesas às sete da manhã.
-Esse já é seu seu segundo atraso, senhor José. Devo dizer que na próxima terei de exclui-lo. Vá para a biblioteca estudar um pouco.
Ah vá.
-Tudo bem. Volto na segunda aula, chefia.- Falei dando um tchauzinho furtivo pro coordenador. Porra, esse cara vive na minha cola. Eu meio que desconfio dele. O cara só vive com aquelas roupas sociais, ouve Diana Ross ( vi um CD dela uma vez no carro dele) e fez cirurgia pra redução de queda de cabelo? Hmm, boiola...
O Ugo e o Leo devem estar se perguntando se eu faltei de novo, pensei comigo mesmo. Provavelmente o Leo estava anotando a aula todinha para depois passar pra mim detalhadamente. Que gracinha. Então, pensei, não tô muito afim de ir pra biblioteca. Eu não ia fazer nada lá, só ouvir meu iPod e tentar ler a Rolling Stones que trouxe na mochila...
Mas foi ai que senti uma onda terrível de medo no ar. Como bruxo, tenho uma empatia sobrenatural com a natureza, e o ar estava com um sentimento de medo muito forte. E estava perto de mim. Alguém estava simplesmente em pânico naquele momento, ao meu lado. Mas não havia nada lá. A não ser o banheiro masculino.
Cheguei até a porta, mas não queria abrir. Pude ver que o trinco não estava levantado, não estava trancada. Tentei de novo, e sem sucesso. Já ia desistir quando ouvi um grito vindo de lá. Eu precisava entrar. Resolvi apelar pra magia. Fechei os olhos e os abri de novo lentamente. Senti minhas córneas esquentarem, minha pupila adquirindo outra cor.
Abre. AGORA!
A porta se abriu num estrondo e vi tudo muito rápido: Dois garotos estavam lá. Um caído no chão, e outro sendo agarrado pelo pescoço por uma mão branca vinda de dentro de um box. Era esquelética e enrugada, algo pertubador de se ver. O garoto abriu a boca mais uma vez e... Caiu morto no chão. Ao longe, um trovão rugiu. O outro garoto tremia como um condenado, e não pude evitar: Também cai de bunda no chão, observando aquela cena com pavor.
Nem percebi quando uma professora e o zelador apareceram atrás de mim e soltaram exclamações de horror. O zelador foi correndo chamar alguém, enquanto a professora tentou me levantar e ver se eu estava bem. No fim, eu fui chamado à diretoria, não pra ser julgado nem nada, só pra dar meu testemunho. Eu disse tudo o que tinha feito claramente, omitindo é claro a parte que eu explodi a trinca da porta com meu poder da mente. Fui declarado inocente. Levaram o corpo do guri e suspenderam o resto das aulas. Na saída, eu, Leo e Ugo fomos caminhando e conversando sobre o que havia acontecido.
-Eu não tinha ideia do que era aquilo. Veio, foi sinistro pra caralho. Só o que eu vi foi uma mão branca segurando o pescoço dele e soltando de uma vez depois. - Falei.
-Isso é muito estranho. Pode ter sido um homicídio, sei lá? - Ugo questionou.
-Não sei. Mas se foi, com certeza não era humano. - Falei. Leo parou de andar subtamente. Olhamos para ele confusos.
-Como era essa mão? - Ele perguntou.
-Err... Sei lá. Branca. Cadavérica. Fantasmagórica... - Falei, constatando isso.
-Onde ela estava? -Dentro do box, e tava atacando o cara.
-Tinha algum corpo... Algum rosto? - Leo já perguntou, parecendo meio pertubado.
-Não, Leo. Só vi a droga da mão. Aonde tu quer chegar com isso?- Perguntei, já não gostando daonde isso ia dar.
-Cê sabe quem pode ter feito isso, Leo? - Ugo perguntou, calmo mas sério. Leo espremeu a boca, fez cara de choro e assentiu com a cabeça.
-Então, quem foi, porra?! - Perguntei, já sem paciência com aquela viadagem. Ele ainda hesitou em dizer. Mas abriu a boca e as palavras simplesmente saíram.
-A Loira do Banheiro.
Estávamos na minha casa, e eu não conseguia parar de rir ainda. Eu simplesmente não acreditava que o Leo tivesse medo de uma coisa tão ridicula como aquela. Até porque, quem ia ter medo de uma loira? Pô, não são elas o melhor tipo de mulher?
-Mas ela não é mais uma mulher! É um fantasma que aterroriza e mata os garotos nos banheiros públicos.- Leo falou, com cara de leãozinho assustado.
- Ai dentro, véi. Isso é historia pra boi dormir, não existe essa coisa de loira do banheiro. - Falei. Ugo andava muito quieto. Naquele momento, resolveu falar algo.
-Ou talvez não, Zeca. Olhamos para ele. -Pensa bem: Se fosse assim, nós também não existiriamos. Você é um bruxo com tatuagens malucas, o Leo é um lobisomem chorão...
-EI! - Leo reclamou.
-...E eu sou um vampiro de capa e tudo. Todas as lendas existentes estão na boca do povo por algum motivo, por que algo as iniciou. - Ugo completou.
-Falou a voz da sabedoria. - Falei.
-É sério, pô. Vamos, bora ver se tem alguma coisa na internet. - Ugo falou.
-Ah, com certeza tem. Eu já vi um monte. - Leo confessou.
-Hum, sei muito bem que coisas que você viu. - Brinquei enquanto ligava meu computador. Depois de séculos esperando a porcaria da minha internet carregar, procuramos por nossa suspeita no Google. Tinha muitas fotos pornôs ( que acabei guardando no meu arquivo, claro) e umas informações. Achamos um site que dizia o que houvera com a Loira do Banheiro e como faziamos para envocá-la.
Ela era uma típica garota no interior de São Paulo (Não me pergunte aonde) que sofria sempre muito Bullying do pessoal por ser muito esquisitona e por viver gripada. Ela vivia isolada de todos e não fazia mal a ninguém. Até que fizeram mal com ela. Um grupo de encreiqueiros do colégio a encurralaram, arrastaram-na para o banheiro masculino, enfiaram um monte de algodão no seu nariz e depois a estupraram até não poder mais. Ela acabou morrendo. Desesperados, jogaram o cadáver num box. No dia seguinte, nenhum corpo foi encontrado. E em uma semana, todos os caras que fizeram mal a ela morreram. Todos dentro do banheiro.
-Então ela resolveu dar uma de Carrie a Estranha e matou os viadim que estupraram ela. Típico.
-Caralho, como tu brinca com um negócio desses? -Leo me repreendeu. - Não dá pra perceber que a coisa é séria? Tem um fantasma assassino no banheiro da nossa escola que acabou de matar um colega nosso e deixou outro traumatizado pro resto da vida.
Com as palavras de Leo, resolvi calar a boca.
-É... Tá, foi mal. Acho que exagerei. - Admiti. - Mas o que a gente vai fazer com a loirinha?
-Nós temos que exorcizá-la. Ela tem que ficar em paz, só assim podemos livrar todos dela. - Ugo falou. Depois de minutos de silêncio, percebi um negócio.
-Cara, não dá. Mesmo se exorcisarmos a alma dela, o mau agouro vai estar sempre naquele ambiente. Mesmo sem as mortes, a energia negativa vai estar sempre impregnada no banheiro, e isso vai acabar atraindo outros espiritos do mal. Ugo franziu a testa, ainda mais sério. Não sabiamos o que fazer. Até que...
-Ahá!- Leo exclamou, erguendo um dedo para o alto.
-Opa! O leãozinho teve uma ideia. - Falei, fazendo Ugo rir.
-Leãozinho é o caralho. - Leo falou, me mostrando a língua.
- Eu pensei no seguinte. Por que nós não oferecemos a alma dela pros Deuses? Talvez assim eles absorvam a negatividade e a mandem pra um lugar melhor.
-Réé... Olha só! Nosso loirinho do banheiro evoluindo! - Eu disse, raspando meu punho cerrado no cucuruto dele.
-Então tá combinado, né? A gente vai lá hoje à noite. - Ugo determinou.
-Cara, eu sinceramente ODEIO ter que voltar pro colégio a essa hora quando eu podia estar vendo o Pânico na Tv. - Falei, cruzando os braços emburrado. Nós três estavamos com jaquetas moletom com capuz e calças até o joelhos. Mais pareciamos criminosos. Chegamos ao muro do colégio e olhamos ao redor, nos certificando de que não havia ninguém por ali.
Por fim, nos concentramos: Senti o calor sobrenatural subindo pela minha espinha, dançando pelas minhas costas, meu rosto, e circulando ao redor dos meus braços. Senti meus ossos estalando, se estendendo, ficando mais firmes, e assim percebi que chegou a hora.
-Eu sou... - Comecei.
-...FERA!- Urramos juntos e "explodimos".
Pulamos o muro e fomos rapidamente até o terceiro andar do segundo prédio. Lá ficava a biblioteca e os banheiros. Ainda bem que nossa visão não é mais humana, por que aquilo estava escuro demais pra alguém normal enxergar.
-Muito bem, vamos revisar primeiro. - Ugo disse, parando perto da escada do segundo andar e tirando uma pequena tesoura de uma polchete que ele trazia.
-Pra quê isso? - Perguntei.
-É pra invocar a Loira. Tem que fazer um ritualzinho meio... ridículo.- Leo explicou. Ok, eu só queria acabar logo com isso e esquecer aquela cena de matança daquela manhã. Chegamos ao banheiro masculino. Nos preparamos para entrar, mas Leo soltou um "Auf!".
-Que é que foi?- Ugo perguntou.
-Esqueci de um detalhe... - Ele disse, fazendo cara de cachorro culpado.
-E seria...?- Perguntei.
-É que...O ritual só pode ser feito por uma pessoa sozinha. É o que diz aqui. - Ele disse, tirando um papel de dentro do bolso. Suspirei, irritado.
-Ok, vamos no Zerinho ou Um. Botamos as mãos para trás do corpo.
-Zerinho... Ou...Um! - Falamos, estendendo as mãos. Eu e Guto tinhamos os punhos cerrados, enquanto Leo tinha a pata aberta. Eu e o "Conde" sorrimos aliviados.
-Ei, isso não vale! Não dá pra fechar minha pata com essas unhas. - Leo reclamou.
-Ah, perdeu mané. Entra lá. - Falei. Leo entrou, e deixamos uma brecha da porta aberta. O lobinho entrou lá, hesitando. Parou, olhou pra trás e nos viu.
-Não se preocupa. Estamos aqui. - Ugo o tranquilizou. Leo avançou, colocou a tesoura em cima do ralo debaixo da pia, entrou dentro de um box rapidamente, apertou a descarga três vezes e saiu apressado. Depois, tremendo, começou a xingar o ar:
-Va...Vagabunda. Filha da... Pu... Puta. Caralho! - Ele exclamou. Esperamos um minuto. Nada. Me apoiei no chão e esperei por ela.
-Ela deve estar retocando a maquiagem. - Falei. Ugo me repreendeu com o olhar e entrou no banheiro. O segui e nos juntamos a Leo. Nem sinal da Loira. Pensei cedo demais.
Ao darmos as costas, demos de cara com um rosto branco com olhos enormes e assustadores emoldurados por um monte emaranhado de cabelo loiro-sujo olhando para nós. Gritamos de susto, e vi Leo escondendo a cauda de lobo debaixo das pernas. Ela ficou lá, nos observando por um momento. Depois foi abrindo a boca lentamente, e vimos que o maxilar dela ia se despregando de sua pele, tornando sua boca imensa, mostrando dentes afiados e manchados de sangue. Caralho, eu nunca tinha visto um espirito maligno assim tão de perto. Minhas pernas estavam tremendo, cara.
-Zeca, o feitiço! - Ugo exclamou. Eu estava, tipo, paralisado! Aquela fantasma olhou bem dentro dos meus olhos, e percebi que ela tinha algodões enfiados dentro do nariz. E manchados de sangue. -Zeca, depressa!!
-A...Alma corrompida pelo pavor...
A Loira do Banheiro deu um guincho tão alto e repentino que me calei na hora. Leo deu um grito atrás de nós. Ela estava lá, agarrando ele pelas costas, deixando-o imobilizado. Leo tentou se defender, mas ela parecia ser bem mais forte do que ele. Ugo, desesperado, estendeu as mãos e colocou-as à sua frente.
-VENTOS!!
Uma rajada de vento saiu de trás de nós e atingiu Leo e a Loira, jogando-os contra a parede. Leo caiu de joelhos no chão, mas a Loira se dissolveu em água. Essa era minha chance. Mirei a poça da Loira antes que ela sumisse, e a levitei com a mente. Ela tentava escapar, mas eu sou bem mais foda.
-Vamos, Leo. Vamos fazer um círculo. - Ugo falou, ajudando Leo a andar até nós. Prendi a Loira no nosso espaço, que já havia se materializado em fantasma.
-Porra! As velas! - Ugo lembrou, parecendo desesperado.
-Não seja por isso. - Falei. Fechei os olhos e os abri de súbito, criando um circulo de fogo ao nosso redor.
-Você não pode mais passar, gata. - Avisei à Loira. Ela fez uma cara de brava e rugiu bem na minha cara, me deixando arrepiado. Ela ia se dissipar pelas paredes, mas eu agi:
-Alma corrompida pelo pavor,
Nós lhe oferecemos o amor...
A Loira se contorceu com minhas palavras, pendendo o pescoço pra trás, pra frente, pro lado, como se ela não tivesse ossos.
-Da escuridão viemos lhe tirar
e para a paz eterna lhe entregar.
Ela se contorceu ainda mais, e lutava para se libertar de nós. Leo rosnou para ela, mas foi inutil.
-Repitam comigo! - Gritei, mesmo com os guinchos dela abafando minha voz. Eles me ouviram. Recitamos juntos:
-Alma corrompida pelo pavor,
Nós lhe oferecemos o amor.
Da escuridão viemos lhe tirar
e para a paz eterna lhe entregar.
Então, uma corrente branca e brilhante prendeu a Loira do Banheiro no chão. Olhei para meus amigos, e assentimos fizemos o feitiço de entrega aos Deuses.
- Deuses do Além
Seus servos aqui convém
Para entregar-lhe ódio e agonia
Para que transformem em bem e alegria.
E assim, a Loira do Banheiro se recontorceu mais uma vez, e depois parou. Ela ficou rija no lugar, Deixou o cabelo loiro sujo e manchado de sangue corbrir seu rosto. Aos poucos, sua roupa branca foi ficando mais brilhante, perdendo o ar fantasmagórico. Em pouco tempo ela estava brilhando por completo. Então, ela afastou o cabelo do rosto e sorriu para nós. Bicho, ela era gata. Eu pegava.
- Muito obrigada...
E assim, ela partiu.
Caimos no chão exaustos.
PORRA! Cheguei atrasado de novo. Que saco. Mas, ainda bem que eu tinha uma carta na manga. Enquanto subia as escadas, inventei um feitiço. Ouvi o coordenador dando passos na escada, se aproximando de mim.
-Você não está me vendo, eu sou uma sombra
Vou passar por você, e você não vai dar conta
Agora entro na sala e vou embora
Enquanto você arranca esse bigode fora.- Eu recitei num sussurro.
Ele passou por mim rapidamente, sem me ver. Fui de mansinho até minha sala e entrei, sentando na carteira do meio da sala, próxima à de Ugo e atrás da de Leo.
-O coordenador te deixou entrar? - Ugo perguntou. Sorri, pondo os braços atrás do pescoço, relaxado.
-Bom, digamos que eu fui um pouco mais discreto. Hehe...
Então, dois caras olharam para Leo e sussurraram pra ele:
-Ei, Leo, cê acredita no que tão falando por ai?
-O que é?- Meu amigo perguntou.
-Que a Loira do Banheiro está aqui, no nosso colégio, lá no banheiro masculino. - O garoto falou.
-Ah, que é isso, man. Essas coisa não existem. - Leo falou. Depois, ele olhou para mim e para Ugo. Nós três sorrimos, sem nenhum motivo.
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