sábado, 26 de março de 2011

# 01 #Partida nada amistosa.#


Ugo

A arquibancada nem estava tão lotada assim. Pelo menos do lado do meu time só vi Zeca e Léo na primeira arquibancada. O jogo estava muito fácil. O time do Edu avançava em mim, mas eu desviava com agilidade. Era como se eu fosse elástico e passasse por enormes paredões com a bola no pé.


Cheguei no gol. Preparei pra dar uma bicicleta, mas Léo me desconcentrou.


-Vai nessa, Ugo! - Ele gritou.


Pô, logo que eu ia dar uma digna de Ronaldinho Gaucho. Mas consegui virar o jogo. Girei o corpo num ângulo de noventa graus e chutei com toda minha força a bola dentro do gol. O goleiro deu de cara com o gramado alto do campo, e a bola quase pôs fosco na rede, de tanta fumaça que saiu. Bati na mão do pessoal do meu time e fui cumprimentar meus amigos. O Leo me deu um abraço e me parabenizou, dramático como sempre, e o Zeca me deu um aperto de mão e um abraço.


-Véi, tu tá fedendo. - Ele falou. Sincero como sempre.


Então, o mal perdedor veio cortar o clima.


-Esse joguinho de merda não significou nada. Eu posso ganhar de ti com os olhos vendados. - Edu falou, se aproximando de nós com uma catinga de suor danada. Bem, eu não podia reclamar, talvez eu estivesse pior que ele.


-Ah, qualé Edu! Isso é só um amistoso, não é um campeonato nem nada não. Uma partida dessa não vai... - Eu tentei falar, mas ele me cortou:


-E quem disse que é amistoso? - Ele disse, emburrado. - Eu ganharia de ti num campeonato com os olhos vendados, mermão.


-Tá, já ouvi da primeira vez.


-Eu falo o que eu quiser, porra! - Edu resmungou, avançando em mim com aquele peito de pavão dele. Cara, que bicho ridiculo.


-Idiota. - Leo falou. Olhei para ele e depois para Edu, e vi que o ultimo ficou puto.


-Como é que é rapá? - Ele perguntou, esbarrando em mim e praticamente subindo a grade que separa a arquibancada do campo. Edu encarou Leo com raiva, e meu amigo engoliu em seco.


- Que é que tu tá falando ai? - Perguntou, trincando os dentes.


-Na-Na-Nada, Edu. - Leo gaguejou.


-Tu toma cuidado com o que tu fala ou perde a língua! - Ele ameaçou. Ah, assim já era demais. Eu ia dizer umas poucas e boas pra ele, mas Zeca fez isso por mim.


-Caralho, tu continua sendo o crianção de sempre, né Edu? - Ele falou, com os braços cruzados, encostado relaxadamente na grade- A gente te conhece desde a primeira série e cê continua sendo o filinho papai debilóide que quer tudo do seu jeito. Vê se cresce, mano!

-Ah, tu também cala essa tua boca que eu sou bem melhor que você. Pelo menos eu não sou um favelado que nem você que se acha um tal só porque é branco.


Caraca... Isso não ia acabar bem. O Zeca ficou com um olhar furioso, praticamente de ira. Edu começou a rir, achando que o silêncio de Zeca lhe designara a derrota. Porém, meu amigo olhou para as pernas de Edu, moveu dois dedos discretamente e o brutamontes idiota caiu estatelado no chão, como se suas pernas tivessem tropeçado por... Mágica.


Ele se recompôs ( ou não) e apontou o dedo na minha cara.

-Revanche hoje às 19:00horas, nesse campo. -Edu falou. Até parece que eu ia seguir uma ordem dele.

-E se eu não quiser vir? - Eu perguntei.

-Por que? Tá com medo, bichinha? - Edu perguntou, rindo como debiloide junto dos outros mongóis do seu time.

-Combinado. Às 19:00 nesse campo. - Eu falei. Não queria obedecer a ele, mas eu não sou de recusar desafio. Edu, Graças a Deus, foi embora dali com sua trupe.

Então, cutucaram meu ombro.

-Foi mal, Ugo, mas eu não vou poder ir. - Rafa, o artilheiro do meu time sussurrou.

-É eu também. - O Tiagho, o goleiro falou em seguida. Não foi preciso pensar muito em quem iria substituir os dois.

-Esquenta não. O Leo e o Zeca ficam no lugar de vocês. - Eu disse.

-COMO É QUE É?! - Meus dois amigos perguntaram em uníssono. Sorri, sabendo que depois de muita discussão eles cederiam.


Mais tarde naquela mesma noite, chegamos lá pelas 19:26h. O resto do time estava atrasado, e só nós três estávamos lá. O campo de futebol estava um breu, e parecia maior à noite.

-Cadê aquele viado? Eu tenho coisas importantes pra fazer.- Zeca falou.

-Sério? Tipo, estudar? - Perguntei.

-Er... Não! Ouvir meu novo estéreo que ganhei de presente de natal. Continua novinho. Tô doido pra levar ele lá pra lage do meu tio e convidar as menina pra dançar um funk... Hahá! - Ele falou.

-Legal. A gente pode ir?- Leo perguntou.

-Claro, véi. Mas, acho que cê não vai pegar ninguém né, Leo. Já que cê tá afim da Sharon. - Zeca falou, balançando as sobrancelhas e desenhando duas curvas no ar ao falar o nome "Sharon".

-Ah que é isso, ela é só minha amiga. - Ele falou.

-Amiga que cê quer comer. - Zeca disse.

-Ei, pô! Olha a tua boca, mermão!- Eu falei, vendo Leo enrubescer.

-Num é nada disso, Zeca. Ela me vê só como amigo. Então é isso que a gente é. - Leo falou, fazendo a sua tipica cara de cachorrinho abandonado.


Deixando nosso papo de lado, estavamos quase indo embora, quando ouvimos um barulho estranho no pequeno portão de saída do campo. O trinco tinha sido trancado, e ouvimos risadinhas do outro lado.
-Ah, não acredito nisso. - Falei, correndo até o portão junto de meus amigos. Já era tarde. Do outro lado, Edu e seus seguidores riam da nossa desgraça.
-Se divirtam com o jogo aê, idiotas! - Ele gritou, fazendo seus amigos rirem. Caralho, como eu odeio aquele cara. Eles foram embora calmamente ignorando nossos gritos.
-Eduu!! Tira a gente daqui, agora!! - Eu gritei.
-Puta merda!! Sabia que tinha coisa no meio!! - Zeca também gritou.
-Por que essas coisas sempre acontecem com a gente?!! - Leo choramingou. Fiquei com tanta raiva, raiva de ter acreditado que Edu ia mesmo fazer um jogo limpo, que comecei a sentir aquele familiar calafrio na espinha. Percebi que meus amigos também estavam começando a mudar. Leo contorceu o pescoço e ouvi o barulhos dos seus ossos. Os olhos do Zeca estavam arregalados, mas sua pupila tinha desaparecendo, dando lugar a uma orbita totalmente branca no globo ocular. Até que chegou a hora. Todos nós inspiramos o ar.
-Eu sou... FERA!
Nós três rugimos juntos e meio que "explodimos". Agora nossa pele estava completamente diferente. Leo estava todo peludo, tinha um fucinho, pelos amarelados pelo corpo todo, orelhas pontudas no alto da cabeça e um short jeans quase rasgado cobrindo seu tesouro masculino. o Zeca não estava no chão. Ele estava de pernas cruzadas levitando no ar, a pele de um tom meio pálido, descalço, com uma camisa regata com capuz preta com detalhes prateados, e tatuagens intricadas em seus braços. Enquanto a mim, eu sabia que meus olhos estavam amarelos como lâmpadas e que minhas presas haviam crescido. Estava com uma enorme capa preta com uma gola que cobria quase toda minha cabeça, sem camisa, só com umas mangas pretas de roqueiro e calça preta rasgada.
Sem mais delongas, tratamos de sair dali: Dei um salto mortal para trás e alcancei seis metros de altura e pousei na calçada de pé; Léo escalou as paredes rapidamente e Zeca voou até o lado de fora.
-Que tal darmos uma lição em alguém? - Zeca perguntou, erguendo a palma da mão e soltando faíscas. Suas tatuagens começaram a brilhar, ao proverem seu poder.
-Não podemos matar ninguém. Sabe disso. - Falei.
-Mas eu bem que gostaria de dilacerar a garganta daquele filho da puta...- Leo rosnou, afiando as garras no chão da calçada.
- Você não faz ideia do quanto eu gostaria de fazer isso, mas não podemos. Se matarmos alguém próximo de nós vão acabar nos descobrindo e entraremos em problema com a polícia e com os Deuses... - Mal acabei de falar, um relâmpago soou ao longe, como se fosse uma resposta dos nossos soberanos.
-Acho que eles querem um pouco de força vital. Vamos nessa. - Zeca disse, impaciente.
-Ok, vamos. Mas não... O... Matem. - Mandei.
-Tá bom, mãe. Só vou brincar um pouquinho com ele. - Zeca sibilou, fazendo Leo rir como uma hiena. Admito que sorri também.
Não foi dificil achar Edu e sua turma. Eles estavam fumando e bebendo cerveja perto de uma construção abandonada ali perto. Que nojo.
Resolvemos assustá-los um pouco.
Edu ria de bêbado, falando porcarias e mais porcarias. Um dos carinhas falava de um fliperama que tinha um jogo de pinball em que a bola batia nos seios de uma boneca virtual e os seios balançavam como gelatina. Isso fez a cambada de idiotas rir mais ainda. Foi ai que ouviram um barulho vindo da construção.
Um dos caras olhou para trás assustado.
-Cê ouviu isso, Edu?- Ele perguntou.
-Ouvi o quê, caralho?! - Edu perguntou, ainda rindo e arrotando de tão bêbado que estava. O barulho de novo, dessa vez seguido de um vulto ao longe.
-Caralho! - Um dos caras falou, morrendo de medo. Edu se ergueu, e deu um ultimo arroto.
-Quem é que tá ai? - Ele perguntou berrando. Sem resposta. - Responde, porráá!!
Então, a garrafa de cerveja se mexeu. Todos se calaram e a observaram. Zeca estava do meu lado, e ele fez um movimento com a mão, movimentando a garrafa também, como um marionete. Ela caiu no chao e rodou, rodou, rodou... E apontou para um dos caras, que quase cagou nas calças de tanto susto. Ele olhou pros lados, apavorado. Tudo ficou em silêncio.
Até que Zeca o puxou para a escuridão.
Os outros amigos de Edu gritaram de pavor, e se juntaram a ele, praticamente abraçando-o de medo. Edu também não estava nada tranquilo, apesar de estar fedendo a alcool. Então, demos nossa entrada triunfal.
Nós três aparecemos na frente deles, Leo com o amigo de Edu nos braços. Ele o soltou e se juntou aos outros, que já deviam ter se mijado todinhos.
-Quem são vocês? - Edu perguntou, tremendo como vara verde. Aproximamo-nos deles, olhamos bem em seus olhos e...
-Somos seu pior pesadelo. - Falamos juntos, abrindo a boca num quase sorriso e mostrando nossos dentes salientes. TODOS eles gritaram como garotinhas e sairam correndo dali.
Mas antes de irem embora, nos divertimos um pouco. Leo voou nas costas de Edu e o arranhou com suas garras, fazendo-o gritar de dor. Eu ergui minha mão e vi fumaças quase imperceptiveis sairem de dentro dos corpos de todos eles e irem até mim, enchendo-me com suas energias vitais. Os que não tinham sido atacados continuaram a correr, até que Zeca ergueu a mão no ar, fez tatuagens brilharem, e derrubou todos os garotos com o poder da mente.
- Nao esquenta. Essa mordida vai sair ao nascer do sol. - Leo falou para Edu, que com certeza não ouvira estando estatelado no chao. Os outros pareciam estar bem, só atordoados.
Então, passamos por um beco e voltamos à nossa forma humana.
Nunca rimos tanto da desgraça alheia. Apesar de me sentir um pouco cupado pelo que fizera, acho que o Edu teria feito o mesmo conosco se tivesse chance. Ah, ele que se lasque.
E sumimos noite adentro.

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