Leo
Noite de sábado.
Os últimos carros de funcionários publicos já se recolheram. Não havia nenhuma alma viva naquela rua.
Apenas uma senhora que voltava da missa. Devia ser um saco ter que passar por oito quarteirões e ainda passar por uma viela de terra mal iluminada para chegar em casa.
Como todas as senhoras que já vi, esta voltava toda arrumada da cerimônia, com vestidos próprios para sua idade, daqueles que a Rainha Elizabeth já deve ter se cansado, e um penteado volumoso de séculos de atraso.
Ela entrou na viela sossegadamente, sem perceber três vultos saindo de dentro das sombras e seguir o mesmo caminho que o seu. O mais alto dos três tinha um boé surrado, um colar de correntes prateado no pescoço e roupas folgadas demais para seu tamanho; os outros tinham seu mesmo estilo, com um detalhe ou outro diferente. Não demorou muito pra que eles alcançacem a mulher, e a empurrassem contra a parede molhada.
-Perdeu,perdeu, coroa! Passa a bolsa! - O mais alto falou, enquanto os outros dois a seguravam e tentavam conter seus tapas. Ela esperneava por ajuda e se debatia, mas ele abafaram seus gritos pondo a mão no seu pescoço.
-Me...Meninos, vocês deveriam estar es..tu..dando, fazendo algo de bom da vida de voc...
-Cala a boca, porra! E passa logo a merda da bolsa! - O líder deles bufou.
Então, um ruido foi ouvido. Passos rápidos foram ouvidos de cima do telhado de uma das casas que constituia a viela. Um dos assaltantes olhou para o lado, e viu de relance alguém passando por ali e sumindo na escuridão.
A lua estava tão linda... Que resolvi uivar pra ela.
AUUUUUUUUUUUU....
-Que porra foi essa?! - O líder dos três perguntou, tirando a atenção da senhora e olhando pros lados. A dona tremia mais que vara verde.
Um dos poucos postes que ali haviam se apagou. Sozinho.
Uma risada de garoto ouviu-se ao longe.
Os assaltantes soltaram a velha e deixaram-na escorregar até o chão. O líder dos três tirou um revolver de dentro da calça (não me pergunte de que parte) e a apontou para a escuridão do beco.
-Quem é que tá ai?
Nada. Só o sibilo do vento.
-Chefe, vamo vazar daqui... - Um dos comparsas falou, os olhos arregalados olhando para as paredes.
-Cala a boca, porra. Quem é que tá ai, caralho?! - O líder perguntou novamente. Ele apertou o trinco da arma e já ia apertar o gatilho.
-Zeca. - Ugo falou.
De repente, uma lata de lixo veio voando das sombras e atingiu um dos comparsas, fazendo-o cair de cara no chão. Os outros dois se assustaram e ficaram alerta. A senhora se encolheu na parede e tirou o terço cor-de-rosa do bolso, apertando-o contra as mãos cerradas.
-Aparece, covarde! Ou vai tomar bala nas fuças! - O líder falou, não conseguindo desfarçar as mãos trêmulas. O outro comparsa olhava para os lados e já tinha tirado o estilete de dentro do bolso.
-Leo. - Zeca falou.
Ótimo. Adoro quando chega minha vez.
Minha cartada foi rápida. Estava em cima do telhado, observando a tudo como um espectador assiste um circo. Ericei meu corpo, pulhei do telhado, mirei o alvo, e saltei de encontro ao outro comparsa, certificando-me de estar sempre rugindo. Dei-lhe uma dentada na costela, que aliás era magra demais, e o fiz gritar a plenos pulmões. Com seu sangue na boca, levantei o rosto e olhei para o líder.
-Ugo. - Falei.
O cara alto e sisudo vascilou, andou de costas e bateu-as de encontro a uma parede. Ele mal teve tempo de respirar: Ugo surgiu detrás dele, agarrou seu peito e sua cabeça e cravou os dentes em seu pescoço. O líder deu um grito desesperado e ainda se contorceu um pouco, mas acabou caindo derrotado no chão.
Enfim, nós três nos reunimos perto dos corpos. Ugo pegou seu anel vermelho, eu peguei meu colar de três folhinhas de prata e Zeca pegou a pulseira de spike verde. Nós nos agachamos e aproximamos as jóias de nossas vitimas. Então, sairam três fumaças quase imperceptiveis de dentro de seus corpos. Nossas jóias começaram a brilhar, e absorveram as fumacinhas, perdendo o brilho completamente. Tendo a missão cumprida, nos voltamos para a senhora. Ela continuava encolhida no chão, encolhida e apavorada, e agora gemia de medo ao ver nossas três figuras.
Ergui minha mão (pata). Virei a palma para baixo. Mostrei os dentes e...
-Dez reais pelo salvamento, senhora! - Eu falei, tentando parecer simpático. Bom, não tinha nada mais justo do que salvar a vida dela e ganhar um dinheirinho em troca né? Afinal, salvar velhinhas não é a coisa mais prazerosa de se fazer. Mas, como eu esperava, a senhora levantou-se desajeitadamente e correu o mais rápido que uma mulher daquela idade pode correr.
Zeca balançou a cabeça e fez "Tsc,Tsc".
-É... O pessoal sempre foge. -Ele falou.
-Sabia que trabalho comunitário não ia dar em nada. - Falei, fazendo beicinho. Pô, eu bem que queria comprar um novo mangá com os dez reais.
-Bom, já fizemos o que tinhamos de fazer. Agora, vamos completar a missão. - Ugo falou, e nós três demos saltos altos no ar e desaparecemos noite adentro.
Uns minutos depois, lá pelas 19:50, estávamos em nosso quartel general, uma casa abandonada no centro. Onde tudo começara.
Chegamos na parte da frente, já tendo pulado o muro. Zeca foi até a porta e mexeu no bolso da calça preta surrada. Abaixou o capuz para enxergar melhor.
-Ah, me diz que cê não esqueceu. - Ugo disse.
-Peraê, cara. Tô procurando aqui, eu acho... - Zeca olhou para baixo e viu algo brilhando perto do carpete. - Ah! Tá aqui.
Ele abriu a porta e entramos no casarão escuro. Zeca estalou os dedos e as lâmpadas se abriram como que por mágica. Bom, foi mágica. Era um lugar muito legal de se estar. Tinha uma tevê de 30 polegadas em cima de um rack velho num canto da sala, um sofá florido num canto e um enorme espaço com quatro velas no chão. Ouvimos um sibilar. Olhamos ao mesmo tempo para trás e vimos um casal simpático sorrindo para nós. Ele tinha óculos do tipo fundo de garrafa, uma bata branca e calça folgada branca, e ela tinha um enorme vestido branco cobrindo-lhe o corpo quase todo, e um cabelo dourado caindo em ondas secas e espessas pelas suas costas e ombros.
-Que bom tê-los aqui, meninos. Tanto tempo que não nos vemos. - Clara, a moça de branco, falou, a voz macia e doce como favo de mel.
-É, sabe como é né... Essa vida é foda. - Zeca falou, caindo relaxado no sofá.
-Vão querer um chá com biscoitos? Ainda temos alguns na conserva...- Alvo nos ofereceu, movendo-se pela sala sem tocar no chão.
-Não, obrigado, Alvo. Ainda temos que entregar as oferendas. Levanta, Zeca. Acende as velas. - Ugo mandou.
-Pô, eu tenho que fazer tudo é? - Ele reclamou. Depois estendeu a mão e apontou para cada vela, e a cada uma que apontava, aparecia uma chama nelas. Fizemos um circulo ao redor delas e tiramos nossas jóias. Zeca estufou o peito e recitou:
-Deuses do Além
Seus servos aqui convém
Para entregar-lhes ódio e agonia
Para que se transformem em bem e alegria.
Assim que ele terminou de recitar o feitiço, um vento sobrenatural nos rodeou, indicando a resposta dos deuses. As fumaças que estavam presas no anel, na pulseira e no colar sairam de seus recipientes e se transformaram em luz. Em seguida, as três luzes se uniram e se dissiparam na luz vermelha que surgiu no chão, alimentando os Deuses do Submundo com sua negatividade.
Mais um dia de trabalho feito. Cansado, cai sentado no chão, e senti meus pêlos desaparecendo e meu corpo voltando a ser humano novamente. Meus amigos também voltaram ao normal, e sentamos no sofá juntos. Alvo e Clara se aproximaram de nós com seus sorrisos confortaveis. Não consegui evitar de sorrir de volta.
-Pelo menos um leitinho?- Clara perguntou com a mão erguida, que segurava três copos de leite flutuantes. Nós três sorrimos agradecidos.
-Vocês são os fantasmas mais camaradas que já conhecemos. - Zeca falou.
Depois de bebermos o leite, nos aproximamos da porta da despensa. A abrimos e nos deparamos com uma completa escuridão lá dentro. Demos tchau a Clara e Alvo e entramos no portal. No completo escuro, nos despedimos.
-Até amanhã, gente. - Falei.
-Tchau, pessoal. - Ugo se despediu.
-Falou, meus garotos. - Zeca disse.
Fechei os olhos e os abri. Agora estava em frente à minha casa, pronto para deitar em minha cama e ouvir meus irmãos berrando de novo. Antes de entrar, olhei para a lua brilhante no céu. Sorri. E dei um ultimo uivo.
AAAUUUUUUUUU!!
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